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ARGUMENTO COSMOLÓGICO KALAM

26 de abril de 2014

O ARGUMENTO COSMOLÓGICO KALAM
Neste artigo, o filósofo cristão Dr. William Lane Craig
apresenta uma versão do argumento cosmológico em favor
da existência de Deus. Com base em dois argumentos
filosóficos e duas confirmações científicas ele demonstra que
é plausível que o universo teve um começo. Como tudo o
que começa a existir tem uma causa, deve haver uma causa
transcendente para o universo. Dr. William Lane Craig possui
doutorados pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e
pela Universidade de Munique, na Alemanha.
INTRODUÇÃO
“A primeira questão que certamente deve ser perguntada” ,
escreveu G.W.F. Leibiniz, é “Por que existe algo em vez de
nada?” . Esta questão parece ter uma força existencial
profunda, que tem sido percebida por alguns dos maiores
pensadores da humanidade. De acordo com Aristóteles, a
filosofia começa com um senso de assombro sobre o mundo,
e a mais profunda questão que um homem pode fazer
relaciona-se com a origem do universo. Em sua biografia de
Ludwig Wittgenstein, Norman Malcolm relata que Wittgenstein
disse que algumas vezes ele teve certa experiência que
poderia ser mais bem descrita dizendo-se que “quando a
tenho, eu fico assombrado com a existência do mundo. Então
sou inclinado a usar frases como ‘Quão extraordinário é que
algo deva existir’”. Similarmente, um filósofo contemporâneo
observa, “… Minha mente muitas vezes revira-se diante do
imenso significado que esta questão tem para mim. Que algo
exista de alguma forma parece-me um assunto para o mais
profundo temor.”
Por que existe algo em vez de nada? Leibiniz respondeu esta
questão argumentando que algo existe em vez de nada
porque existe um ser necessário que carrega consigo sua
razão para a existência e é a razão suficiente para a
existência de todo ser contingente.
Embora Leibiniz (seguido por certos filósofos
contemporâneos) tenha considerado a inexistência de um ser
necessário como logicamente impossível, uma explicação
mais modesta da necessidade da existência chamada de
“necessidade factual” foi fornecida por John Hick: um ser
necessário é um ser eterno, não-causado, indestrutível e
incorruptível. Leibiniz, é claro, identificou o ser necessário
como Deus. Seus críticos, entretanto, contestaram esta
identificação, sustentando que o universo material poderia ele
mesmo receber o status de um ser necessário. “Por que” ,
perguntou Hume, “não poderia o universo material ser o Ente
necessário, de acordo com esta pretensa explicação de
necessidade?” .
Tipicamente, esta tem sido precisamente a posição do ateu.
Os ateus não se sentiram compelidos a abraçar a visão de
que o universo veio a existir do nada sem nenhuma razão; ao
invés disso, eles consideraram o universo mesmo como um
tipo de ser factualmente necessário: o universo é eterno,
não-causado, indestrutível e incorruptível. Como Russel
claramente colocou , “…O universo está aí, e isto é tudo”.
Será que o argumento de Leibniz nos deixa, portanto, em um
impasse racional ou será que não existem mais recursos
disponíveis para desvendar o mistério da existência do
mundo? Parece-me que existem. É lembrado que uma
propriedade essencial de um ser necessário é a eternidade.
Se, então, puder se demonstrar plausível que o universo
começou a existir e, portanto, não é eterno, até este ponto
poder-se-ia demonstrar a superioridade do teísmo como uma
cosmovisão racional.
Assim, há uma forma do argumento cosmológico muito
negligenciada hoje, mas de grande importância histórica, que
objetiva precisamente demonstrar que o universo teve um
início no tempo. Originada dos esforços dos teólogos
cristãos para refutar a doutrina Grega da eternidade da
matéria, este argumento desenvolveu-se em formulações
sofisticadas através de teólogos Judeus e Islâmicos, que, em
seguida, transmitiram-no de volta ao Ocidente Latino. O
argumento, portanto, tem um vasto apelo inter-sectário, tendo
sido defendido por Muçulmanos, Judeus e Cristãos, tanto
Católicos como Protestantes.
O argumento, que denominei como argumento cosmológico
de kalam, pode ser demonstrado como se segue:
1. Tudo que começa a existir tem uma causa para
sua existência.
2. O universo começou a existir.
2.1 Argumento baseado na impossibilidade de
um infinito real.
2.11 Um infinito real não pode existir.
2.12 Um regresso temporal infinito de
eventos é um infinito real.
2.13 Portanto, um regresso temporal
infinito de eventos não pode existir.
2.2 Argumento baseado na impossibilidade da
formação de um infinito real pela adição
sucessiva.
2.21 Uma coleção formada por sucessivas
adições não pode ser realmente
infinita.
2.22 A série temporal de eventos passados
é uma coleção formada por sucessivas
adições.
2.23 Portanto, uma série temporal de
eventos passados não pode ser
realmente infinita.
3. Portanto, o universo tem uma causa para a sua
existência.
Vamos examinar este argumento mais de perto.
DEFESA DO ARGUMENTO COSMOLÓGICO DE KALAM
SEGUNDA PREMISSA
Claramente, a premissa crucial neste argumento é (2), e dois
argumentos independentes são oferecidos em suporte dele.
Vamos, então, passar a examinar os argumentos que o
amparam.
PRIMEIRO ARGUMENTO DE SUPORTE
Para se entender (2.1), precisamos entender a diferença
entre um infinito potencial e um infinito real. Grosso modo,
um infinito potencial é uma coleção que cresce em direção
ao infinito como limite, mas nunca chega lá. Tal coleção é
realmente indefinida, não infinita. O símbolo para este tipo de
infinito, que é usado em cálculo é . Um infinito real é uma
coleção em que o número de membros realmente é infinito.
A coleção não está crescendo em direção ao infinito, ela é
infinita, ela é “completa”. O símbolo para este tipo de infinito,
que é usado na teoria dos conjuntos para designar conjuntos
que possuem um número infinito de membros, tais como
{1,2,3,…}, é . Ora, (2.11) sustenta, não que um número
infinito potencial não possa existir, mas que um número
infinito real de coisas não pode existir. Pois se um número
real de coisas pode existir, então isto geraria todo tipo de
absurdos.
Talvez a melhor maneira de trazer à tona a verdade de (2.11)
é através de uma ilustração. Deixe-me usar uma de minhas
favoritas, o Hotel de Hilbert, um produto da mente do grande
matemático alemão, David Hilbert. Vamos imaginar um hotel
com um número finito de quartos. Suponha, além disso, que
todos os quartos estão ocupados. Quando um novo hóspede
chega pedindo por um quarto, o proprietário se desculpa,
“Sinto muito, todos os quartos estão ocupados”. Mas vamos
imaginar um hotel com um número infinito de quartos e
suponha mais uma vez que todos os quartos estão
ocupados. Não há um simples quarto vago em todo o hotel
infinito. Deste modo, suponha que um novo hóspede apareça
pedindo por um quarto. “Mas é claro!” diz o proprietário, e
ele imediatamente transfere a pessoa do quarto número 1
para o quarto número 2, a pessoa do quarto número 2 para o
quarto número 3, a pessoa do quarto número 3 para o
número 4, e assim por diante até o infinito.
Como resultado desta mudança de quartos, o quarto número
1 agora se tornou vago e o novo hóspede faz o check-in
com gratidão. Mas lembre-se, antes de ele ter chegado,
todos os quartos estavam ocupados! Igualmente curioso, de
acordo com os matemáticos, não há agora mais pessoas no
hotel do que havia antes: o número é simplesmente infinito.
Mas como isso pode acontecer? O proprietário acabou de
adicionar o nome do novo hóspede no registro e deu-lhe
suas chaves – como pode não haver mais uma pessoa no
hotel do que antes? Mas a situação se torna ainda mais
estranha. Suponha que um número infinito de novos
hóspedes apareça no balcão pedindo por quartos. “É claro, é
claro!” diz o proprietário, e ele prossegue em mudar a pessoa
do quarto 1 para o quarto 2, a pessoa do quarto 2 para o
quarto 4, a pessoa do quarto 3 para o quarto 6, e assim por
diante infinitamente, sempre colocando cada ocupante
original em um quarto cujo número seja o dobro do seu
próprio.
Como resultado, todos os quartos de número ímpar se
tornarão vagos, e o número infinito de novos hóspedes é
facilmente acomodado. Ainda assim, antes de eles chegarem,
todos os quartos estavam ocupados! E novamente, de modo
bastante estranho, o número de hóspedes no hotel é o
mesmo depois do número infinito de novos hóspedes terem
feito check-in , ainda que tenha havido tantos novos
hóspedes quanto hóspedes antigos. De fato, o proprietário
poderia repetir este processo infinitas vezes e ainda assim
nunca haveria um único hóspede a mais no hotel do que
antes.
Mas o Hotel de Hilbert é ainda mais estranho do que o
matemático alemão demonstrou ser. Suponha que alguns dos
hóspedes comecem a sair. Suponha que o hóspede no
quarto 1 parta. Existe agora uma pessoa a menos no hotel?
Não de acordo com os matemáticos – mas simplesmente
pergunte para a mulher que arruma as camas! Suponha que
os hóspedes dos quartos 1,3,5,… partam. Neste caso, um
número infinito de pessoas deixou o hotel, mas de acordo
com os matemáticos, não há menos pessoas no hotel – mas
não converse com a mulher da lavanderia! Na verdade,
poderíamos fazer com que cada hóspede saísse do hotel e
repetir este processo infinitamente muitas vezes, e ainda não
haveria menos pessoas no hotel. Mas, em vez disso,
suponha que as pessoas dos quartos 4,5, 6,… partam.
Em uma simples tirada o hotel se tornaria virtualmente vazio,
o registro de hóspedes reduzido a três nomes, e o infinito
convertido em finitude. E mesmo assim continuaria sendo
verdadeiro que o mesmo número de hóspedes partiu desta
vez como da vez em que os hóspedes dos quartos 1,3,5,…
partiram. Alguém pode acreditar sinceramente que tal hotel
possa existir realmente? Estes tipos de absurdos ilustram a
impossibilidade da existência de um número infinito real de
coisas. Isto nos leva a (2.12). A verdade desta premissa
parece claramente óbvia. Se o universo nunca começou a
existir, então antes de agora houve um número infinito de
eventos prévios. Portanto, uma série de eventos sem começo
no tempo implica a existência de um número infinito real de
coisas, ou seja, eventos passados.
Neste ponto pode ser proveitoso considerar algumas
objeções que podem ser levantadas contra o argumento.
Primeiro, vamos considerar as objeções a (2.11). Wallace
Matson objeta que a premissa deve significar que um número
infinito real de coisas é logicamente impossível; mas que é
fácil mostrar que tal coleção é logicamente possível. Por
exemplo, a série de números negativos {…-3,-2,-1} é uma
coleção infinita real sem um primeiro membro. O erro de
Matson está em pensar que (2.11) significa afirmar a
impossibilidade lógica de um número infinito real de coisas.
O que a premissa expressa é a impossibilidade real ou factual
de um infinito real. Para ilustrar a diferença entre a
possibilidade lógica e a real: não há impossibilidade lógica
de alguma coisa vir a existir sem uma causa, mas tal
circunstância pode muito bem ser impossível de modo real
ou metafísico.
Da mesma forma, (2.11) declara que os absurdos
conseqüentes na existência real de um infinito real mostram
que tal existência é metafisicamente impossível. Portanto,
alguém pode conceder que na esfera conceitual da
matemática seja possível, dadas certas convenções e
axiomas, falar consistentemente sobre séries infinitas de
números, mas isto de maneira alguma implica que um
número infinito real de coisas seja realmente possível. Pode-
se notar também que a escola matemática de intuicionismo
nega até mesmo que a série de números seja realmente
infinita (eles consideram-na potencialmente infinita apenas),
então apelar às séries de números como exemplos de
infinitos reais é um procedimento controverso.
O falecido J.L. Mackie também objetou contra (2.11),
declarando que os absurdos são resolvidos ao notar que para
conjuntos infinitos o axioma “o todo é maior que suas
partes” não é válido, como o é para conjuntos finitos.
Similarmente, Quentin Smith comenta que uma vez que
entendemos que um conjunto infinito tem um subconjunto
próprio com o mesmo número de membros quanto o próprio
conjunto, as situações pretensamente absurdas tornam-se
“perfeitamente críveis”. Mas penso que é precisamente esta
característica da teoria dos conjuntos infinitos que, quando
interpretada para a esfera do real, produz resultados que são
perfeitamente inacreditáveis, como por exemplo, o Hotel de
Hilbert.
Além disso, nem todos os absurdos derivam da negação pela
teoria dos conjuntos infinitos do axioma de Euclides: os
absurdos ilustrados pela saída dos hóspedes do hotel
derivam dos resultados auto-contraditórios quando as
operações inversas de subtração ou divisão são realizadas
utilizando-se números transfinitos. Aqui o problema contra
uma coleção infinita real de coisas torna-se decisiva.
Finalmente pode-se apontar a objeção de Sorabji, que
sustenta que as ilustrações como as do Hotel de Hilbert não
envolvem absurdos. Com o fim de se entender o que está
errado com o argumento de kalam , ele pede-nos para
imaginar duas colunas paralelas começando no mesmo
ponto e expandindo-se na distância infinita, uma coluna de
anos passados e a outra coluna de dias passados.
A razão por que a coluna de dias passados não é maior do
que a coluna de anos passados, diz Sorajbi, é que a coluna
de dias não irá “expandir-se” além do distante fim da outra
coluna, já que nenhuma das duas colunas possui um fim
distante. No caso do Hotel de Hilbert há a tentação de se
pensar que algum residente infortunado no fim distante irá
cair no espaço. Mas não há fim distante: a linha de
residentes não irá se expandir além do fim distante da linha
de quartos. Uma vez que isto é compreendido, o produto é
simplesmente uma verdade explicável – até mesmo
surpreendente e regozijante – sobre o infinito.
Ora, Sorajbi certamente está correto, como vimos, em que o
Hotel de Hilbert ilustra uma verdade explicável sobre a
natureza do infinito real. Se um número realmente infinito de
coisas pudesse existir, o Hotel de Hilbert seria possível. Mas
Sorajbi parece falhar em entender o ponto principal do
paradoxo: eu, por exemplo, não vejo tentação em pensar em
pessoas caindo no fim distante do hotel, pois não há
nenhum, mas tenho dificuldades em acreditar que um hotel
em que todos os quartos estão ocupados possa acomodar
mais hóspedes. É claro que a linha de hóspedes não irá se
expandir além da linha de quartos, mas se todos esses
quartos infinitos já possuem hóspedes neles, então será que
mudar tais hóspedes de lugar pode realmente criar quartos
vagos?
A própria ilustração de Sorajbi das colunas de anos passados
e de dias passados não é menos inquietante para mim: se
dividirmos as colunas em segmentos do tamanho de um pé e
marcarmos uma coluna como os anos e a outra como os
dias, então uma coluna é tão longa como a outra e mesmo
assim para cada segmento do tamanho de um pé na coluna
de anos, são encontrados 365 segmentos de tamanho igual
na coluna de dias! Estes resultados paradoxais podem ser
evitados somente se as coleções de infinitos reais puderem
existir apenas na imaginação, e não na realidade. De qualquer
forma, a ilustração do Hotel de Hilbert não é exaurida por
lidar apenas com a adição de novos hóspedes, pois a
subtração de hóspedes resulta em absurdos até mesmo mais
intratáveis. A análise de Sorajbi não faz nada para resolvê-
las. Portanto, parece-me que as objeções à premissa (2.11)
são menos plausíveis do que a premissa em si.
Com relação à (2.12), a objeção mais freqüente é que o
passado deve ser considerado como um infinito potencial
apenas, não como um infinito real. Esta foi a posição de
Aquino contra Bonaventure, e o filósofo contemporâneo
Charles Hartshorne parece se alinhar com Tomás neste
ponto. Tal posição, entretanto, é insustentável. O futuro é
potencialmente infinito, já que ele não existe; mas o passado
é real de um modo que o futuro não é, como evidenciado no
fato de que possuímos traços do passado no presente, mas
não traços do futuro. Portanto, se a série de eventos
passados nunca começou a existir, então deve ter havido um
número infinito real de eventos passados.
As objeções contra ambas as premissas, portanto, parecem
ser menos convincentes do que as premissas em si. Juntas,
elas implicam que o universo começou a existir. Portanto, eu
concluo que este argumento fornece bons fundamentos para
aceitar a verdade da premissa (2) que o universo começou a
existir.
SEGUNDO ARGUMENTO DE SUPORTE
O segundo argumento (2.2) para o início do universo é
baseado na impossibilidade de se formar um infinito real por
adições sucessivas. Este argumento é distinto do primeiro no
que ele não nega a possibilidade da existência de um infinito
real, mas a possibilidade de este ser formado por adição
sucessiva.
A premissa (2.21) é o passo crucial no argumento. Não se
pode formar uma coleção infinita real de coisas por se
adicionar sucessivamente um membro depois do outro.
Desde que é possível sempre adicionar mais um antes de se
chegar ao infinito, é impossível alcançar o infinito real.
Algumas vezes isto é chamado de impossibilidade de “contar
ao infinito” ou “atravessar o infinito”. É importante entender
que esta impossibilidade não tem nada a ver com a
quantidade de tempo disponível: faz parte da natureza do
infinito que ele não pode ser assim formado.
Alguém pode dizer que enquanto uma coleção infinita não
pode ser formada ao começar por um ponto e depois
adicionar membros, todavia uma coleção infinita poderia ser
formada sem nenhum início, mas terminando em um ponto,
ou seja, terminando em um ponto após um membro após
outro ter sido adicionado pela eternidade. Mas este método
parece até mais inacreditável do que o primeiro método. Se
não é possível contar até o infinito, então como é possível
contar regressivamente do infinito? Se não é possível
atravessar o infinito pelo mover em uma direção, como seria
possível atravessá-lo pelo simples mover na direção oposta?
De fato, a idéia de uma série sem começo terminando no
presente parece absurda. Para dar apenas uma ilustração:
suponha que encontremos um homem que afirma ter contado
através da eternidade e agora está terminando: …, -3, -2,
-1,0. Poderíamos perguntar por que ele não terminou de
contar ontem ou anteontem ou no ano passado? Até lá um
tempo infinito já teria se passado, então ele já deveria ter
terminado naquele tempo. Portanto, em nenhum ponto no
passado infinito poderíamos encontrar o homem terminando
sua contagem, porque em tal ponto ele já deveria ter
terminado! De fato, não importa quão longe voltemos ao
passado, nós nunca poderemos encontrar o homem
terminando a contagem, pois em qualquer ponto que o
alcançarmos ele já terá terminado. Mas se em nenhum ponto
do passado podemos encontrar ele contando [até o fim], isto
contradiz a hipótese de que ele esteve contando pela
eternidade. Isto ilustra o fato de que a formação de um
infinito real por adição consecutiva é igualmente impossível
se alguém o faz até ou do infinito.
A premissa (2.22) pressupõe uma visão dinâmica do tempo
no qual os eventos são realizados de modo serial, um depois
do outro. A série de eventos não é um tipo de linha do
mundo eternamente subsistente que aparece sucessivamente
na consciência. Ao invés disso, tornar-se é real e essencial
ao processo temporal. Esta visão do tempo não é livre de
desafios, mas considerar suas objeções nos levaria muito
longe. No momento, é preciso satisfazer-se com o fato de
que estamos argumentando no fundamento comum com
nossas intuições ordinárias da transformação temporal e em
concordância com um bom número de filósofos
contemporâneos do tempo e do espaço.
Dadas as verdades de (2.21) e (2.22), a conclusão (2.23)
segue logicamente. Se o universo não começou a existir em
um tempo finito atrás, então o presente momento nunca
poderia ter chegado. Mas obviamente, ele chegou. Então,
sabemos que o universo é finito no passado e começou a
existir.
Novamente, será proveitoso considerar várias objeções que
têm sido oferecidas contra este raciocínio. Contra (2.21),
Mackie objeta que o argumento assume indevidamente um
ponto inicial infinitamente distante no passado e então
declara impossível viajar daquele ponto até hoje. Mas não
haveria um ponto inicial no passado infinito, nem mesmo um
infinitamente distante. Mesmo assim, de qualquer ponto no
passado infinito, há apenas uma distância finita até o
presente.
Ora, parece-me que a alegação de Mackie de que o
argumento pressupõe um ponto inicial infinitamente distante
é inteiramente sem fundamento. A característica das séries
não possuírem início serve apenas para acentuar a
dificuldade de serem formadas pela adição cumulativa. O fato
de não haver nenhum início, nem mesmo um infinitamente
distante, torna o problema mais, não menos, perturbador. E o
ponto que em qualquer momento do passado infinito possui
apenas uma distância temporal finita até o presente pode ser
descartado como irrelevante. A questão não é como qualquer
porção finita das séries temporais pode ser formada, mas
como toda série infinita pode ser formada. Se Mackie pensa
que porque cada segmento das séries pode ser formado por
adição cumulativa então toda a série inteira pode ser
formada, então ele está simplesmente cometendo a falácia da
composição.
Sorajbi similarmente objeta que a razão porque é impossível
contar regressivamente do infinito é porque contar envolve
por natureza pegar um número inicial, o que está faltando
neste caso. Mas completar um lapso infinito de anos não
envolve nenhum ano inicial e, portanto, é possível. Entretanto,
esta resposta é claramente inadequada, pois, como vimos, os
anos de um passado infinito poderiam ser enumerados por
números negativos, que no caso de um número infinito
completo de anos implica, realmente, em uma contagem
regressiva do infinito. Sorajbi, entretanto, antecipa esta
objeção e afirma que tal contagem regressiva é possível em
princípio e, portanto, nenhuma barreira lógica foi mostrada
para o transcorrer de um número infinito de anos passados.
Entretanto, novamente, a questão que estou colocando não é
se existe uma contradição lógica em tal pensamento, mas se
tal contagem não é metafisicamente absurda.
Pois vimos que tal contagem não poderia em nenhum ponto
ter sido completada. Mas Sorajbi novamente tem uma
resposta pronta: dizer que a contagem não deve ter
terminado em nenhum ponto confunde a contagem de um
número infinito de anos com a contagem de todos os
números. Em qualquer ponto do passado, o contador eterno
já terá contado um número infinito de números, mas isto não
implica que ele terá contado todos os números negativos. Eu
não penso que o argumento faz esta alegação equivocada, e
isto pode ser tornado claro examinando-se a razão porque
nosso contador eterno é supostamente capaz de completar a
contagem dos números negativos terminando em zero.
De forma a justificar a possibilidade deste feito intuitivamente
impossível, o argumento do oponente apela ao chamado
Princípio da Correspondência usada na teoria dos conjuntos
para determinar se dois conjuntos são equivalentes (ou seja,
possuem o mesmo número de membros) ao comparar os
membros de um conjunto com os membros do outro conjunto
e vice versa . Com base neste princípio, o opositor argumenta
que desde que o contador viveu, digamos, um número infinito
de anos e desde que o conjunto de anos passados pode ser
colocado em uma correspondência de um-a-um com o
conjunto de números negativos, segue que ao contar um
número por ano, um contador eterno iria completar a
contagem de números negativos até o ano presente.
Se perguntássemos por que o contador não poderia terminar
no ano que vem ou em uma centena de anos, o opositor
responderia que antes do presente ano, um número infinito
de anos já teria passado, então, pelo princípio da
correspondência, todos os números já devem ter sido
contados agora. Mas este raciocínio volta-se contra o
opositor: pois, como vimos, nesta explicação o contador já
deveria ter terminado de contar todos os números em
qualquer ponto do passado, já que existe uma
correspondência um-a-um entre os anos do passado e os
números negativos. Portanto, não há equívoco entre contar
um número infinito e contar todos os números. Entretanto,
neste ponto um absurdo mais profundo aparece à vista:
suponha que haja outro contador que faça a contagem no
ritmo de um número negativo por dia.
De acordo com o Princípio da Correspondência, que
fundamenta a teoria dos conjuntos infinitos e a aritmética
transfinita, ambos os contadores eternos terminarão suas
contagens no mesmo momento, mesmo que um esteja
contando em um ritmo 365 vezes mais rápido que o outro!
Será que alguém pode acreditar que estes cenários podem,
de fato, serem obtidos na realidade, ao invés de
representarem o produto de um jogo imaginário jogado em
uma esfera puramente conceitual de acordo com convenções
lógicas adotadas e axiomas?
No que diz respeito à premissa (2.22), muitos pensadores
objetaram que não precisamos considerar o passado como
uma série infinita sem começo e com um fim no presente.
Popper, por exemplo, admite que o conjunto de todos os
eventos passados seja realmente infinito, mas que as séries
de eventos passados são potencialmente infinitas. Isto pode
ser visto começando-se no presente e numerando os
eventos regressivamente, formando assim um infinito
potencial. Portanto, o problema de um infinito real ser
formado por adição sucessiva não aparece. De maneira
similar, Swinburne pensa que é duvidoso que uma série
completa infinita sem início, mas com um fim faça sentido,
mas ele propõe resolver o problema ao começar no presente
e regressar ao passado, então a série de eventos passados
não teria um fim e seria, portanto, um infinito completo.
Esta objeção, entretanto, confunde claramente a contagem
regressiva mental com o progresso real das séries temporais
dos eventos em si. Numerar as séries regressivamente a
partir do presente mostra apenas que se há um número
infinito de eventos passados, então podemos numerar um
número infinito de eventos passados. Mas o problema é:
como esta coleção infinita de eventos veio a ser formada por
adição sucessiva? Como concebemos mentalmente as séries
não afetam de maneira alguma o caráter ontológico das
séries em si como uma série sem início, mas com um fim,
ou, em outras palavras, como um infinito real completado por
adição sucessiva. Novamente, as objeções a (2.21) e (2.22)
parecem menos plausíveis do que as premissas em si.
Juntas elas implicam (2.23), ou seja, que o universo
começou a existir.
PRIMEIRA CONFIRMAÇÃO CIENTÍFICA
Estes argumentos puramente filosóficos para o começo do
universo receberam confirmações extraordinárias a partir de
descobertas na astronomia e na astrofísica no século XX.
Estas confirmações podem ser resumidas em dois pontos: a
confirmação da expansão do universo e a confirmação das
propriedades termodinâmicas do universo.
Com relação ao primeiro, a descoberta de Hubble em 1929 do
desvio para o vermelho na luz de galáxias distantes iniciou
uma revolução na astronomia talvez tão significante como a
revolução Copérnica. Antes disso, o universo como um todo
era concebido como estático; mas a conclusão
impressionante a que Hubble chegou foi que o desvio para o
vermelho é devido ao fato de que o universo está, de fato,
expandindo-se .
A incrível implicação deste fato é que se alguém traça a
expansão de volta no tempo, o universo se torna denso e
mais denso até que se chega ao ponto de densidade infinita,
do qual o universo começou a expandir. A conclusão da
descoberta de Hubble é que em algum ponto do passado
finito – provavelmente há 15 bilhões de anos atrás – o
universo inteiro se contraiu em um ponto matemático simples
que marcou a origem do universo. Esta explosão inicial veio
a ser chamada “Big Bang”. Quatro dos mais proeminentes
astrônomos do mundo descreveram tal evento nestas
palavras:
O universo começou de um estado de densidade infinita…
Espaço e tempo foram criados neste evento e também toda a
matéria do universo. Não faz sentido perguntar o que
aconteceu antes do Big Bang, é como perguntar qual é o
norte do Pólo Norte. Da mesma forma, não é sensato
perguntar onde o Big Bang se localizou. O universo-ponto
não foi um objeto isolado no espaço; ele era o universo
completo, e, portanto, a resposta só pode ser que o Big Bang
começou em todo lugar.
Este evento que marcou o início do universo torna-se mais
impressionante quando se reflete no fato de que um estado
de “densidade infinita” é sinônimo de “nada”. Não pode haver
um objeto que possui densidade infinita, porque se ele
tivesse qualquer tamanho ele poderia ser até mais denso.
Portanto, como o astrônomo de Cambridge Fred Hoyle
apontou, a teoria do Big Bang requer a criação da matéria do
nada. Isto porque quando se volta no tempo, chega-se ao
ponto em que, nas palavras de Hoyle, o universo foi
“reduzido a nada”. Portanto, o que o modelo do Big Bang
parece requerer que o universo começou a existir e foi criado
do nada.
Alguns teóricos tentaram evitar o início absoluto do universo
implicado pela teoria do Big Bang ao especular que o
universo pode ter passado por séries infinitas de expansões
e contrações. Existem, porém, bons fundamentos para
questionar a adequação de tal modelo oscilante do universo:
(i) o modelo oscilante parece ser fisicamente impossível.
Apesar de toda discussão sobre esses modelos, o fato
parece ser que eles são possíveis apenas teoricamente, mas
não possivelmente. Como o falecido professor Tinsley de
Yale explica, em modelos oscilantes “mesmo que os
matemáticos digam que o universo oscila, não há física
conhecida para reverter o colapso e saltar para uma nova
expansão. Os físicos parecem dizer que aqueles modelos
começam do Big Bang, expandem, colapsam e então
acabam” .
Para que o modelo oscilante possa ser correto, parece que
as leis conhecidas da física teriam que ser revisadas. (ii) O
modelo oscilante parece ser observadamente indefensável.
Dois fatos da astronomia observacional parecem ir contra o
modelo oscilante. Primeiro, a homogeneidade observada da
distribuição da matéria através do universo parece
inexplicável em um modelo oscilante. Durante a fase de
contração de tal modelo, buracos negros começam a engolir
a matéria ao redor, resultando em uma distribuição da matéria
sem homogeneidade. Mas não há nenhum mecanismo
conhecido para resolver esta falta de homogeneidade durante
a fase de expansão seguinte.
Portanto, a homogeneidade da matéria observada através do
universo continua sem explicação. Segundo, a densidade do
universo parece ser insuficiente para a re-contração do
universo. Para que o modelo oscilante seja até mesmo
possível, é necessário que o universo seja suficientemente
denso para que a gravidade possa superar a força da
expansão e puxar o universo de volta novamente. Entretanto,
de acordo com as melhores estimativas, se alguém levar em
consideração tanto a matéria luminosa quanto a matéria não-
luminosa (encontrada em halos galácticos) como qualquer
contribuição das partículas de neutrinos para a massa total, o
universo continua tendo apenas metade do que é necessário
para a re-contração.
Além disso, trabalhos recentes em calcular a velocidade e
desaceleração da expansão confirmam que o universo está
expandindo na chamada “velocidade de escape” e não vai,
portanto, se re-contrair. De acordo com Sandage e Tammann,
“Portanto, somos forçados a concluir que… parece inevitável
que o universo irá se expandir para sempre”; eles concluem,
portanto, que “o Universo aconteceu apenas uma vez.” .
SEGUNDA CONFIRMAÇÃO CIENTÍFICA
Como se não fosse o bastante, existe uma segunda
confirmação científica do início do universo baseada nas
propriedades termodinâmicas de vários modelos
cosmológicos. De acordo com a segunda lei da
termodinâmica, processos que agem em um sistema fechado
sempre tendem a um estado de equilíbrio. Assim, nosso
interesse está nas implicações disso quando a lei é aplicada
ao universo como um todo. Pois o universo é um gigantesco
sistema fechado, já que é tudo o que existe e não há energia
fluindo para dentro do exterior. A segunda lei da
termodinâmica parece implicar que, dado tempo suficiente, o
universo irá atingir um estado de equilíbrio termodinâmico
conhecido como “morte térmica” do universo. Esta morte
pode ser quente ou fria, dependendo do universo expandir
para sempre ou de eventualmente contrair-se novamente.
Por um lado, se a densidade do universo é grande o bastante
para superar a força da expansão, então o universo irá se
contrair novamente em uma bola de fogo. Quando o universo
se contrai, as estrelas queimam mais rapidamente até
finalmente explodirem ou evaporarem. Quando o universo se
torna mais denso, os buracos negros começam a engolir
tudo o que há em volta e a aglutinarem-se eles próprios até
que todos os buracos negros finalmente aglutinem-se em um
gigantesco buraco negro de igual extensão com o universo,
de onde ele jamais voltará a surgir. Por outro lado, se a
densidade do universo é insuficiente para parar a expansão,
como parece mais provável, então as galáxias irão
transformar todos seus gases em estrelas e as estrelas irão
se consumir.
Em 10 30 anos o universo irá consistir de 90% de estrelas
mortas, 9% de buracos negros super-massivos e 1% de
matéria atômica. A física de partículas elementares sugere
que depois os prótons irão se decair em elétrons e pósitrons,
tornando o espaço cheio de um gás rarefeito tão ralo que a
distância entre um elétron e um pósitron será do tamanho da
presente galáxia. Em 10 100 anos, alguns cientistas acreditam
que os buracos negros em si irão se dissipar em radiação e
partículas elementares. Eventualmente toda matéria no
universo frio, escuro e eternamente em expansão, será
reduzida a um gás ultra-ralo de partículas elementares e
radiação. O equilíbrio irá prevalecer, e todo o universo
atingirá o estado final, onde nenhuma mudança ocorrerá.
A questão que precisa ser respondida é esta: se, dado tempo
suficiente, o universo irá atingir a morte térmica, então
porque não está agora em um estado de morte térmica se ele
existiu por um tempo infinito? Se o universo não começou a
existir, então ele devia estar agora em um estado de
equilíbrio. Alguns teóricos sugeriram que o universo escapa
da morte térmica final ao oscilar do passado eterno ao futuro
eterno. Mas já vimos que tal modelo parece ser fisicamente e
observadamente inviável. Mas mesmo que evitemos tais
considerações e imaginemos que o universo oscila, o fato é
que as propriedades termodinâmicas deste modelo implicam
o exato começo do universo que seus proponentes tentam
evitar.
Pois as propriedades termodinâmicas de um modelo
oscilante são tais que o universo expande mais longe e mais
longe a cada ciclo sucessivo. Portanto, quando se traça as
expansões de volta no tempo, eles se tornam menores e
menores. Como um time científico explica, “O efeito da
produção de entropia será alargar a escala cósmica de ciclo
a ciclo…Portanto, olhando de volta no tempo, cada ciclo
gerou menos entropia, teve um ciclo de tempo menor, e teve
um fator de expansão do ciclo menor do que o ciclo que o
seguiu.” . Novikov e Zeldovich do Instituto de Matemática
Aplicada da Academia de Ciências da URSS portanto
concluem: “O modelo multi-ciclo tem um futuro infinito, mas
apenas um passado finito” . Como outro escritor aponta, o
modelo oscilante do universo, portanto, ainda requer uma
origem do universo anterior ao menor ciclo.
Portanto, para qualquer cenário que alguém escolha para o
futuro do universo, a termodinâmica implica que o universo
começou a existir. De acordo com o físico P.C. Davies, o
universo deve ter sido criado um tempo finito atrás e está em
um processo de término. Antes da criação, o universo
simplesmente não existia. Portanto, conclui Davies, mesmo
que não gostemos, devemos concluir que a energia do
universo foi de alguma maneira simplesmente “colocada” na
criação como uma condição inicial.
Portanto temos confirmações científicas e filosóficas para o
início do universo. Com este fundamento, penso que estamos
amplamente justificados em concluir pela verdade da
premissa (2) que o universo começou a existir.
PRIMEIRA PREMISSA
A premissa (1) impressiona-me como relativamente
incontroversa. Ela é baseada na intuição metafísica de que
algo não pode vir do nada. Portanto, qualquer argumento em
favor do princípio está sujeito a ser menos óbvio que o
princípio em si mesmo. Até mesmo o grande cético David
Hume admitiu que ele nunca afirmou uma proposição tão
absurda como que algo possa vir à existência sem uma
causa; ele apenas negou que alguém poderia provar o
obviamente verdadeiro princípio causal. Com relação ao
universo, se originalmente não houve nada – nem Deus, nem
espaço, nem tempo -, então como poderia o universo
possivelmente vir a existir? A verdade do princípio ex nihilo,
nihil fit é tão óbvio que eu penso que somos justificados em
abrir mão de uma defesa elaborada da primeira premissa do
argumento.
Todavia, alguns pensadores, ao exercitarem evitar o teísmo
implícito nesta premissa dentro do presente contexto,
sentiram compelidos a negar sua verdade. De maneira a
evitar suas conclusões teístas, Davies apresenta um cenário
em que ele confessa que “não deveria ser levado muito a
sério”, mas que parece exercer uma forte atração para
Davies. Ele faz referência a uma teoria quântica da gravidade
de acordo com a qual o espaço-tempo em si poderia trazer o
não-causado à existência do absolutamente nada.
Enquanto admite que “não há uma teoria quântica da
gravidade satisfatória,” tal teoria “poderia permitir que o
espaço-tempo fosse criado e destruído espontaneamente e
sem uma causa da mesma maneira que partículas são
criadas e destruídas espontaneamente e sem uma causa. A
teoria iria implicar certa probabilidade determinada e
matemática de que, por exemplo, uma bolha de espaço iria
aparecer onde nada havia antes. Portanto, o espaço-tempo
poderia sair do nada como resultado de uma transição
quântica sem causa” .
Em verdade, a criação de pares de partículas não fornece
analogia para este vir-a-ser ex-nihilo radical, como Davies
parece sugerir. Este fenômeno quântico, mesmo que fosse
uma exceção ao princípio de que todo evento tem uma causa,
não fornece analogia para algo vindo à existência do nada.
Embora os físicos falem disto como criação de pares de
partículas e destruição, estes termos são filosoficamente
enganosos, porque tudo o que realmente ocorre é conversão
de energia em matéria ou vice versa. Como Davies admite, “O
processo descrito aqui não representa a criação de matéria
do nada, mas a conversão de energia pré-existente em forma
de matéria.” Portanto, Davies ilude grandemente seu leitor
quando ele afirma que “Partículas… podem aparecer do nada
sem uma causa específica” e novamente, “Ainda, o mundo da
física quântica produz rotineiramente algo do nada”. Ao
contrário, o mundo da física quântica nunca produz algo do
nada.
Entretanto, para considerar o caso em seus próprios méritos:
a gravidade quântica é tão pouco compreendida que o
período anterior a 10 -43 segundo que esta teoria espera
descrever, tem sido comparada por um engraçadinho como
as regiões nos mapas dos antigos cartógrafos marcadas com
“Aqui há dragões”: ele pode ser facilmente enchido com toda
sorte de fantasias. De fato, não parece haver uma boa razão
para se pensar que tal teoria iria envolver o tipo de vir-a-ser
ex-nihilo espontâneo que Davies sugere. Uma teoria da
gravidade quântica tem sido o objetivo para arranjar uma
teoria da gravidade baseada na troca de partículas (gravitões)
ao invés da geometria do espaço, o que pode ser trazido para
uma Teoria da Grande Unificação que une todas as forças da
natureza em um estado super-simétrico no qual uma força
fundamental e um tipo simples de partícula existem. Mas não
parece haver nada nisso que sugira a possibilidade do vir-a-
ser ex-nihilo espontâneo.
Em verdade, não está de todo claro que a explicação de
Davies seja até mesmo inteligível. O que pode significar, por
exemplo, através da afirmação de que há uma probabilidade
matemática de que o nada deveria gerar uma região de
espaço-tempo “onde nada existia antes?” Isto não pode
significar que, dado tempo suficiente, uma região do espaço
iria pular à existência em certo lugar, já que nem o lugar e
nem o tempo existem separados do espaço-tempo. A noção
de certa probabilidade de algo saindo do nada, portanto,
parece incoerente.
Nesta linha de idéias, sou lembrado de algumas observações
de A.N. Prior relacionadas ao argumento colocado por
Jonathan Edwards contra algo vindo à existência sem uma
causa. Isto seria impossível, disse Edwards, pois então seria
inexplicável porque toda e qualquer coisa não poderiam ou
não viriam chegar à existência sem uma causa, já que antes
de suas existências eles não possuem naturezas que
poderiam controlar suas vindas-a-existência. Prior fez uma
aplicação cosmológica do raciocínio de Edwards ao comentar
sobre a teoria do estado estacionário quando esta postula a
criação contínua de átomos de hidrogênio ex-nihilo :
Não faz parte da teoria de Hoyle que este processo seja sem
causa, mas eu quero me definir melhor sobre isto, e dizer que
se ele é sem causa, então o que se alega acontecer é
fantástico e inacreditável. Se for possível que objetos – em
verdade, objetos que realmente são objetos, “substâncias
possuidoras de capacidades” – venham a existir sem uma
causa, então é inacreditável que eles venham a se tornar
objetos do mesmo tipo, ou seja, átomos de hidrogênio. A
natureza peculiar dos átomos de hidrogênio não pode ser o
que faz esse vir-a-existência possível para eles e nem para
objetos de qualquer outro tipo; pois os átomos de hidrogênio
não possuem esta natureza até que eles venham a tê-la, isto
é, até que suas vindas-a-existência tenham ocorrido. Este é
o argumento de Edwards, de fato, e aqui ele parece
inteiramente convincente…
No caso em questão, se originariamente nada existia, então
por que o vazio deveria trazer à existência o espaço-tempo
espontaneamente, ao invés de, digamos, átomos de
hidrogênio, ou até mesmo coelhos? Como alguém pode falar
da probabilidade de algo em particular pular para a existência
a partir do nada?
Davies em certa ocasião pareceu responder que as leis da
física são o fator de controle que determina o que irá saltar
sem causa à existência. “Mas qual das leis? Elas devem
estar ‘ali’ para o início de modo que o universo possa vir a
existir. A física quântica deve existir (em algum sentido) de
modo que a transição quântica possa gerar o cosmo em
primeiro lugar” . Em verdade isto parece excessivamente
estranho. Davies parece atribuir às leis da natureza um tipo
de status causal e ontológico tal que elas forçam um vir-a-
ser espontâneo.
Mas isto parece claramente enganoso: as leis da física não
causam ou forçam nada por si mesmas; elas são apenas
descrições proposicionais de certa forma e generalidade que
ocorre no universo. E a questão que Edwards levanta é por
que, se não há absolutamente nada, seria verdade que
qualquer coisa ao invés de outra deveria saltar à existência
sem uma causa? É fútil dizer que de alguma forma pertence à
natureza do espaço-tempo fazer isso, pois se não houvesse
absolutamente nada então não haveria nenhuma natureza
para determinar que tal espaço-tempo devesse vir a existir.
Até mesmo de forma mais fundamental, todavia, o que Davies
antevê certamente é tolice metafísica. Apesar de seu cenário
ser colocado como uma teoria científica, alguém precisa ser
corajoso o bastante para dizer que o Imperador não está
vestindo nenhuma roupa. Ambas as condições suficientes e
necessárias para o surgimento do espaço-tempo existiam ou
não; se existiam, então não é verdade que nada existiu; se
não existiam, então parece ontologicamente impossível que
algo deva surgir do absoluto nada. Chamar uma geração
espontânea à existência do nada de “transição quântica” ou
atribuí-la a “gravidade quântica” não explica nada; de fato,
nesta teoria, não há explicação. Ela apenas acontece.
Parece-me, portanto, que Davies não forneceu nenhuma base
plausível para negar a verdade da primeira premissa do
argumento cosmológico. Que tudo o que existe tem uma
causa parece ser uma verdade ontologicamente necessária,
uma que é constantemente confirmada em nossa experiência.
CONCLUSÃO
Dada a verdade das premissas (1) e (2), segue logicamente
que (3) o universo deve ter uma causa para sua existência.
De fato, penso que pode ser plausivelmente argumentado que
a causa do universo deve ser um Criador pessoal. Pois como
poderia um efeito temporal surgir de uma causa eterna? Se a
causa fosse simplesmente um conjunto mecânico e
operacional de condições suficientes e necessárias que
existem desde a eternidade, então por que o efeito não
existiria também desde a eternidade? Por exemplo, se a
causa da água ser congelada é a temperatura abaixo de zero
grau, então se a temperatura estivesse abaixo de zero grau
desde a eternidade, qualquer água presente estaria
congelada desde a eternidade.
O único meio de se obter uma causa eterna com um efeito
temporal seria se a causa fosse um agente pessoal que
livremente escolhe criar um efeito no tempo. Por exemplo,
um homem sentado na eternidade pode querer se levantar;
portanto, um efeito temporal pode surgir de um agente
eternamente existente. De fato, o agente pode criar da
eternidade um efeito temporal tal que nenhuma mudança no
agente necessite ser concebida. Portanto, somos trazidos
não somente à primeira causa do universo, mas ao seu
Criador pessoal.
CONCLUSÃO E SUMÁRIO
Em conclusão, vimos com base em argumentos filosóficos e
confirmações científicas que é plausível que o universo teve
um começo. Dado o princípio intuitivamente óbvio de que
tudo que começa a existir tem uma causa para sua
existência, somos levados a concluir que o universo tem uma
causa para a sua existência. Com base no nosso argumento,
esta causa deve ser não-causada, eterna, imutável, atemporal
e imaterial. Além disso, ela deve ser um agente pessoal que
livremente escolhe criar um efeito no tempo. Portanto, com
fundamento no argumento cosmológico de kalam , concluo
que é racional crer que Deus existe.
—————————————————————————-
Por: Willian Lane Craig.

Extraído de: http://www.apologia.com.br

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